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sexta-feira, 6 de março de 2009

Adendo ao post anterior sobre a língua inglesa...

Como eu estava escrevendo este post em um café e a bateria do laptop já estava no osso, além de ter ficado tarde e eu ter que sair para um outro compromisso, acabei terminando o post "Coreanos e a língua inglesa" meio no vapt-vupt.

O negócio que mais me chama a atenção por aqui são dois, na verdade...

1. A dinheirama gasta com o estudo do inglês e o retorno, praticamente nulo.
2. O tempo gasto para atingir a meta de (não) falar inglês.

É incrível o mercado que se construiu por aqui (assim como em outros países asiáticos que não tiveram a "sorte" de serem colonizados pela Inglaterra ou pelos EUA) ao redor da língua inglesa. No Brasil, até onde estou a par, ainda deixa muito a desejar.

Há muuuuitas escolas de reforço escolar (chamados hagwon) com aulas de inglês desde o pré. Há ainda escolas específicas no ensino de línguas (leia-se 90% inglês) em vários pontos das cidades, principalmente em áreas nobres. O ensino em si é em formato de linha de produção, difícil tanto para os professores quanto para os alunos. Aulas começam às 6 da manhã e vão até tarde da noite, muitas vezes até a meia noite ou mais. Muitos professores trabalham um mínimo de 8 horas seguidas sem parar (só nos intervalinhos de 5 a 10 minutos entre as aulas) e muitos alunos também seguem esse ritmo. Ouvi falar de gente que chega a ter mais de 10 horas de aula em um só dia. E isso, do ponto de vista pedagógico é completamente nulo. Onde já se viu forçar um ser humano a prestar atenção em apenas um assunto durante 10 horas por dia, 5, 6 ou até 7 dias por semana? Depois ainda acham estranho que não dá resultado... Fora o dinheiro que é gasto para se torturar os próprios filhos ou a si mesmos, com pouco ou nenhum resultado...

Além de já terem suas aulas na escola, os alunos são matriculados em cursinhos de reforço e de inglês, estudando praticamente 7 dias por semana e chegando a dormir por volta de 4 horas por dia (principalmente durante o ensino médio). Não têm tempo para mais nada além de estudar, e ainda têm de se virar para poder fazer as lições de casa a tempo. Ai se não fizerem.

E assim vai a Coreia caminhando, com um monte de crianças sem infância e um monte de jovens sem emprego, já que o mercado já não dá conta de absorver toda a demanda, o que faz com que as empresas aumentem cada vez mais o nível de seus "vestibulares" e só aceitem gente que fale inglês melhor que um nativo. E aí os poucos que passam ficam contentes com sua vidinha de chegar às 9 e sair sabe-se lá quando (já que, mesmo não tendo o que fazer, não se deve sair antes do chefe; e o chefe, mesmo não tendo o que fazer, não deve sair cedo para mostrar que está trabalhando para seus subalternos), sem ganhar hora extra, e com alguns dias de férias durante o ano, esperando o dia da aposentadoria, se eles não tiverem um ataque cardíaco antes...

quinta-feira, 5 de março de 2009

Liberdade, igualdade, fraternidade, ordem e progresso

Estava lendo uma notícia no serviço de língua portuguesa da BBC de Londres e não é que a mesma fez-me pensar de um tempo quando estava na faculdade e uma menina estava conversando comigo e com alguns amigos japoneses (intercambistas). A imagem me veio à mente como um filme. E essa menina dizia assim:
- Ai, Juliano, não sei como você pode gostar desse país (Japão, no caso)... As mulheres são humilhadas, têm que andar atrás de seus maridos, fazer tudo o que eles querem! É um absurdo! Eu prefiro mil vezes mais (sic) o Brasil! Aqui podemos fazer o que queremos, trabalhar onde quisermos...

Não que a situação para estas bandas daqui seja maravilhosa, longe disso, todos têm seus probleminhas. Mas, é que o buraco é mais embaixo...

Segue a notícia para quem quiser ler e refletir.



Brasil ocupa pior colocação em ranking de diferenças salariais entre os sexos

Marcia Bizzotto

De Bruxelas para a BBC Brasil

Mulheres protestam por igualdade salarial no Fórum Social Mundial em Belém, Pará (AFP, 31/1)

Mulheres no Brasil recebem, em média, 34% a menos de homens

As mulheres brasileiras recebem, em média, salários 34% inferiores aos dos homens, a maior diferença registrada entre os 20 países pesquisados para um estudo divulgado nesta quinta-feira pela Confederação Sindical Internacional (CSI), com sede em Bruxelas.

O resultado no Brasil supera a média dos países pesquisados pela CSI, que é de 22% de diferença entre as remunerações entre homens e mulheres durante o ano de 2008.

Calculadas com base em entrevistas realizadas com 300 mil trabalhadores entre 16 e 44 anos de idade em 20 países - 35.152 deles brasileiros -, as estatísticas da CSI contradizem os números oficiais dos governos, segundo os quais as mulheres de todo o mundo ganhariam, em média, 16,5% a menos que os homens.

Segundo a CSI, depois do Brasil a África do Sul é o país com a maior diferença salarial, de 33%, seguida por México e Argentina, onde as mulheres recebem, respectivamente, remunerações 29,8% e 26,1% mais baixas que os homens.

Por outro lado, a Índia é o país onde as condições são menos díspares entre os pesquisados, com uma diferença salarial de 6,3%.

Grã-Bretanha, Dinamarca e Suécia vêm em seguida, com diferenças de 9%, 10,1% e 11%, respectivamente.

Múltiplas causas

Para Sharran Burrow, presidente da CSI, trata-se de um problema de múltiplas causas.

O estudo indica que, de forma geral, as mulheres com um "nível de qualificação superior" enfrentam as maiores diferenças salariais, o que poderia ser atribuído à discriminação no mercado de trabalho, evidente na "maneira como os empregadores concedem promoções aos postos mais altos e nas deficiências em relação à proteção à maternidade".

Segundo o relatório, o resultado também pode ser atribuído "ao fato de que um maior número de mulheres que de homens ocupa postos de trabalho de tempo parcial ou que exijam menor qualificação em relação ao seu nível de estudos (geralmente pior remunerados), porque tem que trabalhar e cuidar da família ao mesmo tempo".

Globalmente, entre 40% e 50% dos entrevistados disseram ter dificuldade para conciliar a vida profissional e familiar. Entre 43% e 57% dessas pessoas eram mulheres, enquanto entre 34% e 40% eram homens.

Isso também faz com que a diferença salarial aumente com a idade, já que "os cargos de alto nível estão relacionados à experiência e aos anos de trabalho", segundo o estudo.

"Os homens têm geralmente mais tempo de trabalho que as mulheres, porque elas geralmente assumem a maior parte das responsabilidades familiares", conclui a pesquisa.

A CSI engloba 312 sindicatos de 157 países, que representam juntos um total de 170 milhões de trabalhadores.

Fonte: BBC http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2009/03/090304_diferencasalarios_mb_cq.shtml

terça-feira, 3 de março de 2009

Músicas coreanas

Aí vão algumas músicas que fizeram sucesso nos anos 2008/2009. Não há quem não as ouviu, tanto porque não há como não as ouvir: tocam em todos os cantos da cidade, em lojas, nos carros, em altofalantes nas ruas, nos ônibus, etc...

A primeira é "So Hot":


Depois, "Tell Me":


E ainda, "Nobody But You":


Todas essas são das "Wonder Girls", ou seja, "Meninas Maravilha"...

Tem a Baek Ji Young cantando 총 맞은 것처럼 (Cheong majeun got cheoreom), "Como se tivessem atirado em mim":


Agora tem a Son Dambi com sua música 미쳤어, ou seja "Enlouquecida":


E o atual sucesso que toca em todos os lugares, "Gee Gee Gee" do grupo "Girls' Generation":


Não precisa nem dizer que as menininhas fazem sucesso por aqui também... Pelo menos elas ainda não tem nome de fruta.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Coreanos e a língua inglesa

=Exórdio=
Depois de escrever isto aqui (ainda correndo por causa da bateria do laptop estar no osso), descobri que já havia escrito algo parecido em setembro do ano passado. Serve como complemento a este post. Clique aqui.
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O mundo hoje em dia só pensa em inglês, inglês e inglês. Todos dizem que é a língua universal, a língua internacional etc e tal.

Mas, pergunto: chega alguém lá no meio da América Latina em geral e vai falar inglês. Quem responde? Praticamente ninguém. Tem gente aí dizendo, quê isso? Magina! Claro que tem um ou outro que vai responder... É. Pode até ser. Mas aí o sujeito tem que ter sorte, já que estatisticamente o resultado é bem próximo a zero. Sei disso, por ter um dia feito uma pesquisa (pessoal) a respeito deste assunto. Fui às ruas de São Paulo próximo a um distrito que se pode chamar de rico (região da Av. Faria Lima), onde se encontram várias empresas, gente engravatada, o Shopping Iguatemi com suas vitrines escritas em inglês ("Sale", "50% off!"...). E comecei a interpelar as pessoas em inglês para ver quem me respondia. Em umas quase quatro horas que fiquei por lá só tive resposta positiva de alguns pouquíssimos gatos pingados, menos de 5 pessoas dentre centenas...

Na Coreia não é diferente. Se alguém chega por aqui falando inglês pode até ser que tenha mais sorte que em nosso Brasil varonil, mas mesmo assim, pouquíssima gente fala inglês. No entanto, todo mundo, isto é, TODO MUNDO estuda inglês. Talvez influência do exército americano que tanto fez para manter os comunistas fora da parte sul da península coreana, tornando possível o milagre econômico que se deu por aqui nos últimos 30 anos. As crianças já nascem escutando inglês no útero das mães, vão à escola onde têm aulas de inglês, vão aos hagwons (escolas particulares de reforço) e estudam mais inglês, vão a escolas especializadas só em inglês e estudam mais um pouco... Quando crescem um pouco mais, os pais os mandam ao exterior (leia-se Estados Unidos) e lá estudam anos e anos e depois que voltam, das duas uma: ou não falam inglês ainda por terem passado muito tempo com coreanos, ou voltam completamente "desadaptados" à vida coreana, sentindo-se peixes fora d'água em seu próprio país.

Tá, mas e daí? E daí que tá pra ter povo mais nacionalista e patriota que os coreanos. Mas isso não num sentido ruim como o nacionalismo nazista ou uma xenofobia gratuita. Isso se deu graças ao sentimento de sobrevivência do povo coreano durante milênios presos em uma pequena península ao lado de dois enormes impérios (China e Rússia) e mais o Japão do outro lado do mar (descontando ainda os Mongóis e outros durante a looonga história do povo coreano). Se não fosse por esse nacionalismo, no sentido de serem um povo, uma nação, os coreanos já teriam sido de há muito absorvidos pelos chineses, russos, chineses e a Coreia, como país, nunca teria existido. No entanto, isso não aconteceu. Eles foram cabeças-duras e teimosos e conseguiram trazer seu país ao ponto que chegou com muita luta e muita briga e muito patriotismo e sentimento de nação.

Agora, depois de tudo isso, eu, como estrangeiro, enxergando a sociedade coreana de um ponto de vista destacado, vejo que tudo isso que eles conseguiram está aos poucos se deteriorando e se perdendo graças à invasão econômico-cultural dos EUA. Não que isso se passe somente aqui, isso está acontecendo em muitos países ao redor do mundo, mas aqui eu sinto isso de uma forma bem mais forte. Até mesmo comparando ao Japão (tudo bem que já são oito anos desde que saí de lá), mas isso não me parecia TÃO forte como o que sinto por aqui. E o ápice dessa perda de dignidade nacional se mostra bem claramente no "desespero mortal" ao qual os coreanos se jogam para aprender o famigerado inglês.

Aqui, sem inglês, não se consegue nada na vida. Qualquer tipo de cargo público passa por uma avaliação de inglês mesmo que o sujeito trabalhe em uma pequena vilazinha no interior do país e nunca vá ver um só "estrangeiro" durante todo o resto de sua vida. Não importa se as notas da faculdade ou do mestrado tenham sido ótimas, se o candidato não tiver um exame de inglês (geralmente o TOEIC) com uma nota ótima. Em não tendo, o currículo é simplesmente jogado no lixo.

O argumento de que lançam mão é o de que ninguém fala coreano e o inglês é importante para se fazer negócios. Então se se desejar um posto em alguma boa empresa, é necessário ter um certificado com altíssimas notas em inglês. (Aí eu me pergunto: quantas pessoas ativamente precisam de usar inglês nessas empresas? É impossível que todo o contingente de empregados devam entrar em contato com compradores estrangeiros...) Isso tudo me é muito estranho e o problema é que ninguém questiona isso. Muitas vezes a pessoa é altamente capaz para desempenhar o trabalho, mas por falta de uma boa nota em inglês esta mesma pessoa é simplesmente ignorada, não podendo ao menos se defender e mostrar do que é capaz.

Isso tudo cria um mercado de exames (o qual é altamente desenvolvido neste país) e escolas preparatórias (têm cursinhos para tudo). Então, o que é que acontece? Eles vão a esses cursinhos para aprender a passar no exame e não para aprender o assunto em questão. Conheci pessoas que tinham notas altíssimas em seus certificados do TOEIC, mas que não eram capazes de se comunicar da forma mais básicas, uma vez que haviam decorado as respostas de todos os exames passados e só preencheram A, B, C, D nos testes, sem ao menos entender o porquê da resposta ser aquela.

Aqui estou enfatizando o inglês, mas, de uma forma geral, as outras coisas são resolvidas de forma semelhante. No entanto, o que me preocupa muito é o gasto de tempo e de dinheiro que os coreanos despendem com o inglês e por tal motivo negligenciam outras coisas mais básicas e de mais valor.

No caso dos coreanos que enviam seus filhos ao exterior, essas crianças crescem em um meio estranho, aprendem muito bem as outras culturas (principalmente a estadunidense) e quando voltam não se adaptam bem à realidade e à cultura coreana, não tendo aprendido sua história, sua geografia, seus modos e costumes. Isso vai completamente de encontro ao que os coreanos vieram lutando durante milênios como uma nação e agora, por causa dessa mudança brusca de foco para o individualismo, o povo coreano parece estar perdendo muito de sua cultura, de sua história, de seu futuro. Eu muitas vezes me sinto triste quando converso com meus amigos e muitos deles ou não dão valor ou não sabem a respeito da cultura ou da história de seu próprio povo. As tradições e até mesmo a própria língua estão se transformando de uma maneira muito rápida, graças ao desdém presente no sistema educacional que só dá valor aos resultados e não ao processo.

Agora chego a um ponto que nos é importante como brasileiros. Nosso país, assim como a Coreia, parece estar passando por um processo semelhante. Principalmente na área da educação. Não digo que estejamos no mesmo pé dos coreanos, mas parece que esta tendência também está mostrando sua carinha por aí também. Às vezes tenho medo do que está por vir e de que o mundo se pasteurize igualando as culturas e o modo de viver dos diferentes povos. No caso do Brasil, parece ser um pouco mais difícil também pelo fato de o nosso país ser maior e de termos uma cultura variada que ainda se mostra mais ativa. No entanto, a questão da educação é o que mais me faz pensar. A difusão do modo "cursinho" de educação, onde já não ensinam mais o aluno a pensar, e sim a resolver questões da FUVEST/UFMG e etcéteras... Na minha época (olha só... já pareço aqueles velhos ranzinzas reclamando das novas gerações) eu me preocupava em entender e aprender o que me era ensinado, pensando e analisando. Hoje se analisa qual a alternativa dá para ser eliminada. Estaremos nós também marchando em direção ao modelo de educação coreana, à memorização, à pasteurização? Não se é de admirar o fato de os resultados das olimpíadas de matemática e similares terem seus melhores resultados vindos daqui do oriente: a memorização é extremamente desenvolvida por aqui, mas o pensamento crítico e lógico, nem tanto. A desumanização do estudo é alta e os resultados são ótimos para estatísticas. No entanto, o ser humano fica devendo um monte para com a sociedade e o fortalecimento de sua própria nação. Exatamente o contrário do que os coreanos vivem pregando no melhor estilo do "faça o que eu digo, não faça o que eu faço".



PS: Por estar eu atualmente imerso na sociedade coreana, gostaria de afirmar que estas são minhas humildes impressões a respeito dos coreanos. No caso do Japão, já saí de lá há muito tempo e muitas impressões se perderam ou se fundiram com minhas novas impressões daqui. Entretanto, me parece que muito do que se aplica por aqui no quesito educção pode também ser aplicado à China e ao Japão também. O que mais me choca mesmo é a perda quase total da cultura coreana em favor à ocidentalização (leia-se americanização). Aqui cultura coreana só se vê em parques de diversão e vilas culturais que tentam recriar essa tradição que a cada dia se torna mais e mais "brega" para os próprios coreanos. É muito estranho isso porque eles sempre dizem que a Coreia é única com sua cultura única e muitos outros blá-blá-blás que quando a gente chega por aqui fica procurando mas não acha... Ai, ai... que pena...

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Feliz ano do touro!

Segunda-feira passada foi ano novo de novo por aqui.

De novo, porque aqui na Coreia eles usam dois calendários: o nosso velho conhecido calendário gregoriano e, lado a lado a este, o calendário lunar chinês. Este último, por ser lunar, nunca bate com o gregoriano, que é solar. Cada ano que passa, as datas caem em dias diferentes e o aniversário dos mais velhos também. Os mais jovens por aqui preferem seguir seus aniversários pelo calendário gregoriano mesmo pra evitar essas confusões.

Como de praxe, não fiz muita coisa além de ficar em casa estudando e estudando, mesmo sendo um feriado prolongado de quatro dias... E mesmo com tudo isso, ainda não consegui fazer a metade do que tinha pra fazer... Ai, ai, ai...

A maioria dos coreanos, nesse feriadão do ano novo lunar, costuma voltar à região da família paterna em todos os cantos da Coreia. Lá ficam comendo e bebendo e aproveitando, se são homens, ou cozinhando e se matando de trabalhos domésticos, se são mulheres.

No dia do ano novo, a família se reune e faz uma homenagem aos antepassados oferecendo uma mesa farta de frutas, comidas e bebidas. Todos fazem reverência em homenagem à memória dos que já se foram e, logo depois, os mais jovens fazem o mesmo aos mais velhos, reverenciando-os e desejando-lhes boa saúde, ao que são retribuidos com boas somas em dinheiro em gratidão. Não preciso dizer que é a alegria da gurizada! Saem com seus bosinhos cheios de dinheiro (o qual, normalmente, as mães vem depois pegar e dizer que eles não podem gastar tudo aquilo...). Depois da reverenciaiada, passam a comer aquilo tudo que estava na mesa e fazem a festa entre todos.

E aí se vai mais um ano e chega mais um ano...

Como a maioria da população de Seul não é de Seul, os engarrafamentos são monstruosos... É um vai-e-vem enorme de carros pelas rodovias. Em compensação, a cidade fica relativamente vazia. Eu me lembrei de São Paulo durante um jogo da seleção na copa do mundo... Uma pessoa aqui, outra ali, um carro aqui, outro ali, mas aquela loucura do dia-a-dia não existe. Pelo menos, foi bem relaxante pra quem ficou.

Enfim, vamos em frente que atrás vem gente! Mais um ano que começa de novo e um monte de coisas novas e atrasadas pra fazer.

Feliz ano do touro (ou da vaca, ou do boi... já que é tudo a mesma coisa em coreano...)!

Abraços.

sábado, 13 de setembro de 2008

Pensamentos alheios

Gilberto Freyre (1984), a respeito da PNAD do IBGE que mostrava que a ascensão social do mulato e do negro estavam virtualmente bloqueadas.


"O problema é que a abolição da escravatura, embora tenha sido fato notável na história da formação brasileira, foi muito incompleta. Joaquim Nabuco, um homem de extrema visão, lembrava que, com a abolição, os problemas dos negros não estariam resolvidos, eles estariam apenas começando. Nabuco dizia que era necessário preparar o negro para ser cidadão, mas quem se interessou por isso? O novo governo, os novos líderes, os industriais, a Igreja? Ninguém se interessou. O negro livre deixou as fazendas e os engenhos e foi inchar as periferias das cidades. Abandonado, constitui-se num sub-brasileiro. Por isso os dados dessa pesquisa só revelam que há uma discriminação contra homens que não foram educados para ser cidadãos brasileiros."

Sérgio Buarque de Hollanda (1976), a respeito de sua afirmação de no Brasil nunca haver existido democracia.


"No Brasil, sempre foi uma camada miúda e muito exígua que decidiu. O povo sempre está inteiramente fora disso. As lutas, ou mudanças, são executadas por essa elite e em benefício dela, é óbvio. A grande massa navega adormecida, num estado letárgic, mas em certos momentos, de repente, pode irromper brutalmente."


Depois de tanto tempo, o que é que mudou? Se algo, muito pouco...

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Só pra constar...

Quando escrevi aquele post sobre a China e uma pequena comparação com nosso Brasil Varonil, teve gente que disse que não dá pra comparar, que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa... Pois é. É de certa forma verdade.

Não tem como dizer que não vivemos em um país democrático, que nossos governantes são escolhidos democraticamente pelo povo, que a economia vai indo de vento em popa, que estamos entre o seletíssimo grupo das quinze maiores economias do planeta, etc.

Também não dá pra negar a falta de liberdade do povo chinês na maior parte de suas vidas. Não se pode migrar do campo para a cidade sem prévia autorização do governo (leia-se do PCC, que não é o Primeiro Comando da Capital não, tá?); a falta de liberdade de escolher quantos filhos ter, tendo o casal a única opção de "ter" ou "não ter" um filho; ter que se submeter ao modo socialista de viver; além de conviver com a pena capital aguardando pelos criminosos.

Bem, o que eu queria mostrar com meu humilde post era apenas o fato de que o Brasil ainda tem muuuuita coisa pra mudar. E tudo pode ser conseguido com apenas a conscientização do povo. O nosso povo brasileiro não pensa (muito) nas coisas erradas porque, primeiro, não tem educação (no sentido de estudo), não tem idéia do que é a política, não dá valor ao voto democrático, e, por último, não quer saber dessas coisas complicadas já que tem muito o que fazer (trabalhar) e pensar (futebol).

Este nosso povo é filho de uma colônia explorada até as últimas gotas por potências exteriores, acostumada à divisão de classes desde cedo (Europeus X Negros/Índios), nascida e criada em "mini-reinos" governados pelos Coronéis e seus capangas... Esta nossa geração (incluo-me aqui), além de tudo isso, ainda é filha da época da ditadura, uma época em que se tinha medo de pensar, de ser contra o sistema, de extravasar qualquer emoção política em público. Ainda vivemos sob leis criadas para cercear os (poucos) direitos do cidadão, só dando a eles a opção do pão e circo.

Senti muito isso morando aqui na Coréia, que de uma forma ou de outra, é bem parecida com o nosso Gigante-deitado-eternamente-em-berço-esplêndido. O povo coreano passou também uma boa parte de sua vida vassalo da China, em guerra com o Japão, e, mais recentemente, subordinada ao jugo japonês durante décadas antes que o país fosse invadido pelas duas grandes forças mundiais no pós-guerra, os soviéticos ao norte e os americanos ao sul, o que rendeu a divisão do país a qual continua até hoje. Logo após a democratização da Coréia do Sul, o país se viu jogado em uma época de ditadura (meio no estilo Getúlio Vargas) e, logo depois, pelos militares.

Todo esse pano de fundo deu um resultado meio parecido ao pensamento do povo brasileiro.

Para o coreano, não há país melhor que a Coréia, não há comida melhor que a coreana, não há montes e mares mais belos que os deles... Parece com alguém que vocês conhecem?

No entanto, o ponto de ruptura entre as duas nações se deu há cerca de uns quarenta anos, quando o governo decidiu investir. Não vou dizer, como muitos dizem, que o que mudou a Coréia foi a educação. Isso porque a educação na Coréia sempre, desde o primórdios do princípio, por influência da China e de suas doutrinas (como o Budismo e, mais tarde, o Confucionismo), sempre havia sido de extrema importância. Além disso, logo após a abertura e a ocidentalização da Coréia no finzinho do séc. XIX e começo do séc. XX, os americanos chegaram aqui ávidos por um país à espera de evangelização, o que trouxe o protestantismo e universidades (no estilo ocidental) para o país. É claro que houve investimento na área de educação, mas creio eu de uma forma um pouco menos direta do que o é dito a torto e a direito por aí. (Corrijam-me se estiver equivocado.) A "tara" do povo coreano de dar estudo aos filhos somente se alastrou às classes mais baixas que eram proibidas de fazê-lo por questões financeiras e sociais (a não ser que mandassem o filho estudar nos templos). A partir dos anos 60, o governo injetou grana pesada é na indústria coreana que precisava crescer a todo custo e exportar para gerar divisas e tirar o pobre país agrícola do úmido campo de arroz. Foi aí que nasceram os grandes conglomerados coreanos como Hyundae, Samsung e LG, só pra citar uns poucos e mais conhecidos no Brasil. Com o aumento de trabalho, veio o aumento de dinheiro, com o aumento de dinheiro e com setores especializados, veio a demanda de educação, com a demanda de educação, veio uma geração mais preparada, com essa geração mais preparada, veio mais forças para as grandes empresas, e assim vem sendo, uma bola de neve.

O problema é que aqui também tem problema de educação. Ao ver os números brutos e descontextualizados, parece que "tudo vai bem no Reino da Dinamarca", mas algo está podre. Ao meu ver, convivendo com os coreanos que pululam aqui e ali neste país, percebo que o esforço para o estudo é muito grande, mas o resultado é relativamente pífio. O coreano médio não quer saber muito mais do que um brasileiro médio (de nível universitário). As pretensões são as mesmas de se conseguir um bom emprego em uma grande empresa, entrar às 9, sair às 5 (com sorte), emprestar dinheiro pra comprar casa, pagar durante 20 anos, ter filhos, botá-los na escola até a faculdade, e depois morrer (já que não dá muito tempo pra aposentar).

Os coreanos praticamente vivem na escola, principalmente na época do segundo grau (sempre esqueço o nome novo que deram... ensino médio?). Saem de casa às 6, vão pra escola o dia inteiro, depois da aula mais ou menos às 5, vão estudar na escola mesmo, por algumas (boas) horas e depois, vão pra casa?, não!, vão pro cursinho estudar de novo até a meia-noite ou uma da manhã, pra no dia seguinte fazer a mesma coisa (principalmente no terceiro ano do ensino médio).

E estudam o quê? - pergunto eu. Estudam, ou melhor, memorizam questões de vestibular.

A vida dos estudantes coreanos se resume a decorar questões de vestibular... Claro que há exceções, mas na maioria dos casos, as escolas só ensinam e os pais só enfatizam o fato de o "ser" ser capaz de passar na prova do vestibular! Isso já estava acontecendo no Brasil quando saí com as "escolas" do Objetivo, do Anglo, etc, que moldam seus currículos baseados no vestibular. Eu acho isso um impropério! Coitado do jovem, que é uma esponja, é capaz de aprender qualquer coisa, só é ensinado a resolver questões prontas que se repetem de ano a ano! Ao invés de ensinar o sujeito a base e dar todo o conhecimento necessário o qual por meio de raciocínio lógico e bom senso vão guiá-lo para o resto de sua vida, as escolas só ensinam os coitados a resolver problemas. O que acontece? Viram robozinhos! É o que mais vejo por aqui... A maioria dos coreanos, não sabe de nada, só do que decoraram para resolver os problemas que aparecem na vida. A meu ver, eles não tem preparação alguma a não ser o fato de serem aptos a decorar o manual de instruções que vai salvar a pele do sujeito para aquela ocasião. Quando não precisar mais, é só apertar "delete"; se precisar de novo, é só decorar. Acho que é por isso que coreano gosta tanto de computador. É exatamente o que eles são: encheu o disco rígido? formata! precisa de mais programas? dá um download!

Pois é, tudo isso só pra chegar no ponto central.

Será que nosso mundo tem jeito? O Brasil tá assim, a Coréia tá assado, a China tá daquele jeito, o Reino de Nosso Senhor GW Bush está de mal a pior...

E muita coisa, por estarmos muito acostumados, não conseguimos ver. Se tudo está errado, o que está certo parece errado. Acostumamo-nos a ver sempre a mesma coisa, sempre a mesma pasmaceira, e se alguém sai desses trilhos, essa pessoa é estranha, é errada. Para que mudar? Para que se dar ao trabalho de mudar?

No entanto, meus amigos, quando temos a oportunidade de um campo neutro, de um distanciamento que nos dá a possibilidade (não que todos façam isso) de observar com outros olhos e com novos parâmetros, muita coisa deveria e poderia ser mudada. Não obstante, isso não é fácil pela mentalidade do gado que vai sendo tocado ao som do berrante de 508 anos de servidão.

Há um (bom) certo tempo atrás, estava eu em Pouso Alegre, a cidade que abraça o futuro, e matava meu tempo lendo um jornal na praça pública do centro da cidade à frente da catedral. Quando menos esperava, uma senhora se aproximou e disse, na mais pura boa-vontade: "Bom dia, moço!" - ao que lhe respondi - "Bom dia." Continuou ela então: "Não lê muito não, que faz mal pras vistas, viu? Bom dia." E assim foi. Isso ficou marcado como uma facada em meu peito, sensação que não esqueço até hoje. Enquanto o povo for avesso à educação, à informação, ao pensamento crítico, à expressão de suas opiniões, aos debates, etc, nosso país e nosso povo nunca sairá da lama em que reclama estar por tantos e tantos séculos. Pensei em perguntar-lhe se muita TV também não faria mal às vistas, mas contive-me e decidi não prolongar a conversa. Também não me faria entender.

Isso é algo que sempre ouvi desde molecote (que palavrinha besta, né?). "Não deixe esse menino ler/estudar tanto assim que ele fica louco!" Muita gente dizia isso a meus pais e eu me lembro como se fora ontem.

No entanto, de uma forma ou de outra, acho que eles tinham uma pontinha de razão... Se eu tivesse seguido seus conselhos, hoje estaria feliz no meu cantinho assistindo Domingão do Faustão/Domingo Legal deitado no sofá da sala...

Um abraço com certa indignação...

Juliano

PS: Quanto ao fato de vivermos em um país democrático de livre expressão e sem censura, favor ler o seguinte post do blog "A Nova Corja": http://www.novacorja.org/?p=4238.

Obrigado pela atenção.

PPS: E eu ainda tenho que estudar pro meu exame... Ai, ai...

terça-feira, 8 de julho de 2008

A vaca louca e o presidente

Quando escrevi o título deste post, li-o e percebi um quê de cordel... Vou tentar então contar a historinha por meio das nossas amadas redondilhas...

nestas terras da Coréia
este novo presidente
num acordo de comérico
comprou carne demente

a carne é americana
do acordo bilateral
só que teve um probleminha
e o povo caiu de pau

descobriram que essa carne
tinha um vírus mortal
que atacou o pobrezinho
do sacrificado animal

este novo presidente
que de bobo não tem nada
disse pro povo "relaxa"
a vaca era vacinada

"vacinada uma ova"
gritou o povo raivoso
e pra este presidente
foi um pouco doloroso

doloroso ouvir seu povo
gritando "esse ladrão,
é um louco, assassino,
vamos jogá-lo no chão!"

o negócio é que a carne
pra economia daqui
é um produto de peso
de mais valor que o siri

os coitados coreanos
que da carne ganham o pão
ficaram muito chocados
com essa má decisão

presidente se dirige
a toda a população
dizendo "não há problema,
não carece confusão!"

o povo que não é bobo
saiu de vela na mão
reclamando do maldito
e da maldita importação

de que adianta o preço
ser mais que liquidação
se comendo dessa carne
haverá consternação?

o povo não quer ouvir
palavra do presidente
já que estão muito irados
e já morreu muita gente

essa gente que exigia
o direito democrático
que acabou por se tornar
um momento bem dramático

na história do país
coisa assim nunca se viu
o povo gritando nas ruas
"vai pra ponte que o partiu!"

gritar contra o presidente
palavras de ordem vis
é considerado crime,
coitados desses civis

a polícia militar
de escudo e cacetete
parte pra cima do povo
descendo sem dó o porrete

só por causa do desejo
de exprimir seus direitos
como pobres cidadãos
que não concorreram aos pleitos

esse novo presidente
parece que nem ta aí
já trouxe a Condolezza
flerta com o FMI

não pode deixar voar
essa galinha de ouro
os States da América
que trarão um bom tesouro

o que é bom para o país
e para os governantes
mas o povo reitera:
"bando de ignorantes"

a vela é uma lei
do tempo da ditadura
não se pode reclamar
a favor da agricultura

com mãos limpas reunião
na rua por lei não há
só se pode com as velas
sem se criar bafafá

mesmo com o apoio da lei
e tais encontros luminosos
o povo não tem sucessos
que cheguem a ser gloriosos

pacifismo é a lei
que impera com os "veleiros"
ainda assim os "hómi" chegam
com momentos traiçoeiros

basta um olhar estranho
um mover-se diferente
já é pouco o estardalhaço
já são dez civis sem dente

bala de festim é pouco
jato d'água da mangueira
é assim que muita gente
sofre agora de cegueira

outros já somente apanham
de escudo ou cacetada
os "hómi" não tem piedade
e vão descendo a porrada

tudo isso só por causa
do acordo americano
de comércio que só dá
carne louca ao coreano

já disseram ao presidente
que por pouco não caiu
mas ele nem se preocupa
das promessas já fugiu

agora seu interesse
é com os States brincar
falar com a Condolezza
com o Bush conversar

dessa forma a influência
da Coréia aumentar
o povo? que ele se dane!
quero mais dele é roubar!

é assim o presidente
que o coreano elegeu
lá em outubro passado
quando muito pensei eu

que esse candidatinho
que falava tanto o povo
não ia melhorar nada
procuraram pêlo em ovo

pra mim esse cara de início
me parecia safado
com um tal de Paulo M.
de São Paulo, aquele estado

que o tem como ladrão
mas mesmo assim bonzinho
porque constrói coisas boas
para o povo coitadinho

o povo que vota nele
e muitos impostos paga
não vê como o bolso dele
de dinheiro se alaga

o mesmo vi eu por cá
nesta terra tão distante
um presiente safado
e um povo ignorante


Vá lá que não é uma obra prima, mas em 15 minutos o que se há de fazer? Minha verve trovadoresca não é lá essas coisas. Quem se incomodar, que me perdoe.

Mas esse negócio das manifestações à luz de velas é um caso à parte. (Ó! Duas crase em uma frase! (E um plural assassinado pra manter a rima...)) É uma lei do tempo que a dita era dura que proíbe qualquer tipo de reunião civil em locais públicos a não ser que os manifestantes carreguem consigo um vela (acesa, claro). Pra mim, como bom brasileiro, me lembra aquelas procissões de santo padroeiro quando o santo sai da igreja dá uma voltinha na praça e volta pro altar à espera de seu próximo passeio anual. Pra mim não parece em nada uma manifestação anti-FTA e anti-ruminante-esquizofrênico. O povo tá puto da vida com o Lee Myung-bak, que a propósito é coreano nascido no exílio, em seu registro de nascimento consta o nome 月山明博, ou seja, Akihiro Tsukiyama. Essas coisas que eu não entendo... os coreanos que odeiam tanto os japoneses elegem um Akihiro Tsukiyama pra presidente e depois ficam reclamando... Culpa deles, ué.

Ah, e pra quem acha que Seul é do tamanho de uma quadra de Futsal, eu só vi essas manifestações pela TV. Elas acontecem a 20 km da minha casa, em frente à prefeitura de Seul que, para assuntos manifestísticos, é equivalente à Paulista/Brigadeiro/Consolação em SP. Copa do mundo? Prefeitura! Impeachment do presidente? Prefeitura! Show de grátis pro povo? Prefeitura! Vaca louca? Prefeitura... É tudo lá. E um pouco também no ribeirão Cheongye, que foi "o Myung-bak que fez"! Ai, como é parecido com o nosso M. lá de SP...

Camiseta e a sociedade coreana do ponto de vista lingüístico


Uma das primeiras coisas que fiz por aqui foi tratar de me fantasiar de turista, isto é, tratei de comprar uma camiseta com motivos coreanos.
O negócio é que é uma camiseta preta com um poema da era Choseon, última dinastia coreana antes da colonização japonesa. O poema obviamente está escrito em hanja (漢字), isto é, caracteres chineses em estilo cursivo.

Abaixo segue o que está escrito no papelzinho que veio junto com a camiseta, com um pouco mais de informação pesquisada por mim.

"Este é um poema escrito por um dos maiores monges daquela era, chamado Seo San 서산대사 (西山大師) (1520-1604) . Ei-lo:

踏雪野中去 不須胡亂行 今日我行跡 遂作後人程
답설야중거 불수호란행 금일아행적 수작후인정

Ou seja:

Ao passar por campos nevados,
nunca caminhe incautamente,
já que seus rastros serão
o guia dos que te seguirão.

Este poema era o favorito de Kim Gu 김구 (1876-1949) que era o presidente do Governo Provisório Coreano sob o regime do imperialismo japonês. Quando ele foi assassinado no ano de 1949, ele estava escrevendo este poema. No momento crucial da pátria, ele enfatizava as pegadas, isto é, os traços deixados pelos que passaram, o modelo a ser seguido, como a estrela-guia para os descendentes, não se importando com sua própria segurança pessoal."

Pois é, é bonito. Tem um sentido profundo e uma história de bravura e luta pelos ideais patrióticos, um pouco à la Tiradentes. Mas aí vêm os coreanos... ai ai...
Toda vez que eu saio com essa camiseta, as pessoas me olham de soslaio, ou disgueio, e os mais corajosos vêm me perguntar por que eu estou andando com uma camiseta da China ou do Japão... Ambos aceitáveis, já que os ideogramas estão escritos na forma cursiva e muitos se parecem incrivelmente com hiraganas japoneses. Aí eu venho e falo que é um poema coreano. Eles então olham pra mim e riem com uma cara de desconfiança, como que querendo dizer "Ha! Esse wegugin (estrangeiro) nem sabe a diferença de Coréia, China ou Japão!" Eles então, por cordialidade, soltam um arremedo de comentário e dizem com a maior certeza e crente que estão ensinando uma grande lição: "Mas isso não é coreano, veja, são aqueles desenhinhos chineses, aquelas letras estranhas deles! Você não vê?" E eu respondo: "Claro que sim! Isso é hanmun (estilo arcaico de se escrever a língua coreana por meio de caracteres chineses, pra encurtar assunto, já que não é tão simples assim). É um poema antigo CO-RE-A-NO (acentuando todas as sílabas) que estava sendo escrito pelo governador da Coréia quando foi capturado e assassinado pelos japoneses." Eles esntão desistem de me "ensinar" o correto e soltam um "Ah, tá.", querendo dizer: "Ai, esses qegugins... Acham que sabem tanto... Deveriam mais é deixar a gente sossegado e voltar pros seus países...".
Pois é. É claro que isso não é todo mundo, mas uma grande parte pensa assim. A impressão que eu tenho é que não existe escola por aqui! Ninguém sabe nada. Só se sabe o que todo mundo sabe. Deixe-me explicar. A história coreana, a qual eles gabam de ser quadrimilenar e o diabo a quatro, tem no máximo uma meia dúzia de personagens. Pergunte a qualquer coreano o nome de personalidades históricas durante os 4000 (!) anos de história coreana e eles vão falar: Tangun (o rei-deus que deu origem ao povo coreano), I Sun Shin (o general (?) que inventou os navios-tartaruga que derrotaram os japoneses durante uma investida do Tokugawa-san por aqui), O Grande Rei Sejong, o magnífico (o carinha que era tão bonzinho que costumava jantar com seus súditos sujos e pobres e que inventou tudo o que tem na Coréia, inclusive as letras usadas por aqui). Quem se arriscar, vai acabar tirando do bolso as notas de 1000 e 5000 wons pra ler os nomes dos carinhas que estampam as mesmas (a de 10000 wons todo mundo sabe que tem o Rei Sejong). E acabou. Daí já pula pros presidentes modernos como Rhee Syngman, Park Chung-hee...
Fora isso, tem gente que não sabe quantos rins uma pessoa tem ou que a coluna vertebral é a única partezinha do corpo que liga a parte de cima com a parte de baixo (pra evitar nomes científicos).
Além do que o inglês é a única língua no mundo, fora a odiosa língua que os japoneses impuseram aos coreanos durante o período da colonização ou aquela língua feia e cantada dos chineses que só sabem copiar os produtos coreanos e vender mais barato.
De uma forma geral, eu acho a cultura geral de um coreano médio bem baixa. Não deixa nada a dever aos nossos compatriotas que muitas vezes são tachados de ignorantes, imbecis e de "só podia ser brasileiro mesmo". E acho que tudo isso se resume à forma de ensino coreana. 100% memorização. Pra isso eles são bons e dão de 10 a zero ni nóis. Memorização tudo e qualquer coisa. De um dia pra outro, memorizam capítulos de livros pra fazer prova. Uma semana depois? Zero. Parecem ter uns bons terabytes de RAM na cabeça, mas desligou a tomada, puf! Eu não acho isso bom. Eu, pessoalmente, sempre aprendi que memorização não é uma coisa boa, que antes de memorizar, temos que entender e aprender. E aprendendo, não há a necessidade de memorizar, pois o conhecimento já está aconchegado nas sinapses cerebrais e vai demorar muito mais pra sair de lá. É claro que a curva de resposta dos dois estilos são completamente inversas... Memorização é de efeito quase imediato, ao passo que aprendizagem demora para realmente se efetivar. Acho que tbm por isso: pela alma ppali-ppali dos coreanos impacientes... Pra que aprender se dá pra memorizar? E se precisar de usar aquilo de novo, basta memorizar de novo. São bem pragmáticos. Sabem o que todo mundo sabe (numa nivelada sócio-cultural) e sabem o que têm que saber pra poder fazer seu trabalho de forma rápida (não necessariamente eficiente).
Aí está... Todo mundo sabe que japoneses são malvados e bobos, portanto não devem gostar deles. Todo mundo sabe que chineses não tomam banho e comem cachorro, então não devem gostar deles também. E aí? Como é que eu fico com a minha camiseta "coreana"????

Ah, só a quem interessar possa:

Nem sei se vocês têm acompanhado minha saga mestradística por aqui pelas bandas das Coréia, mas lembram-se de quando eu comecei a estudar Python, comecei a fazer aqueles programinhas, estava arrancando meus cabelos para pensar em algum projeto... Pois é. Meus problemas acabaram!!! Com o Super-Auto-Programeitor Tabajara... ops! Canal errado! (Momento Idiocracy...) Voltando: meus problemas já se findaram graças a um belo trabalho de equipe que, pelo que percebi, ocorreu pela primeira vez em nossa "lindo" Laboratório de Lingüística (eita palavrinha difícil de escrever... eu sempre digito isso umas três vezes por causa dos acentos que saem nos lugares errados...) Computacional da Universidade Nacional de Seul, Coréia. Eu e Munhyong, meu colega de laboratório, resolvemos partir para o matadouro juntos. Munhyong estudou na Universidade de Línguas Estrangeiras da Coréia (韓國外國語大學校) no departamento de Engenharia (?) (não entendi isso até hoje... engenharia numa faculdade de línguas, mas tudo bem...) e sabe programar muito bem em C e adjacências. O problema é que C, para o que precisamos fazer é um pouco "muito complicado de mais", e geralmente fazemos uso de outras línguas de programação, principalmente Perl. Passamos o semestre passado fazendo programinhas em Perl para aprender (no estilo "sevirômetro") e acabamos manejando mais ou menos essa língua de programação meio esquisita mas muito útil. Aí vieram as férias, depois outras aulas e outros afazeres e agora, no final do semestre, quando ele foi fazer seus programinhas em Perl, descobriu que já tinha esquecido quase tudo.
No meu caso, descobri um "kit de ferramentas" para trabalhar com programação de processamento de línguas naturais chamado NLTK que tem por base a linguagem de programação chamada Python. Pra mim que já vivia no mundo GNU/Linux por mais de 3 anos, além de uns 5 anos de curioso antes disso, o nome Python não era em nada estranho. Além disso, eu já tinha até me aventurado a tentar fazer um programinha em Python pouco antes de entrar no mestrado, e resolvi unir o útil ao agradável: usar o NLTK e, de quebra, aprender mais uma lingüinha de programação. Vocês devem se lembrar de algum post anterior onde devo ter mencionado esse fato. De lá pra cá, mergulhei no Python e fui aprendendo na marra a usar essa língua muito estranha no começo (principalmente pra quem usava Perl) e absurdamente útil agora! Simplesmente não consigo me imaginar sem usar Python agora. Depois de pegar o jeito da coisa (e olha que eu nem comecei a arranhar a superfície ainda...), tudo fica bem mais fácil, prático e útil em uma bordoada só.
Voltando ao assunto do trabalho... Quando estava sofrendo em busca do cálice sagrado, a respeito do que poderia fazer como projeto final do curso de Lingüística Computacional 2, acabei comentando com o Munhyong e ele convidou-me a fazer o projeto com ele, já que ele tinha uma idéia meio Frankenstein de unir dois projetos que a gente havia estudado durante o curso. Pus-me então a ajudá-lo, seguindo suas instruções e fazendo meus programinhas. Não obstante o fato de que esforçamo-nos deveras, a primeira idéia acabou não dando muito certo. Sem perder as estribeiras, Munhyong acabou frankensteiniando uma outra idéia parecida com um corpus (Graças à Wikipédia, temos que: Corpus lingüístico é um corpo de textos escritos ou falados numa língua disponível para análise. O estudo de corpora (corpora é o plural de corpus) apresenta muitas vantagens. Em vez de consultar nossas intuições, ou de ‘extrair’ informações dos falantes, penosamente, uma a uma, podemos examinar um vasto material que foi produzido espontaneamente na fala ou na escrita das pessoas, e portanto podemos fazer observações precisas sobre o real comportamento lingüístico de gente real. Portanto os corpora podem nos proporcionar informações altamente confiáveis e isentas de opiniões e de julgamentos prévios, sobre os fatos de uma língua. O uso de corpus (plural corpora) está associado à Linguística de Corpus.) de um projeto sobre língua coreana. Resolvemos então construir, baseado em um projeto que acabou de ser feito por outro aluno do nosso laboratório (aquele que sumiu), um programa para a extração de palavras semelhantes baseada na relação entre as funções sintáticas e as palavras em vista. Com isso, construímos pares de palavras ligadas por meio de suas relações sintáticas de um corpus com cerca de 10.000.000 de palavras. Depois por meio desses pares, pusemo-nos a calcular o nível de similaridade entre essas palavras. O resultado final foi como o projeto anterior, relativamente baixo, isto é, as palavras encontradas não são tão similares quanto se esparava. Aí é que entra o "tcham" do nosso projeto, a língua coreana possui um alto grau de homófonos/homógrafos, por exemplo, bae, em coreano, pode significar "barco/navio", "barriga", "pêra" e "vezes (formador de numerais multiplicativos)". No primeiro experimento, todos esses significados se mostraram presentes em um só grupo, o que não traz bom resultado. Em suma, o programa dizia que barco é similar a pêssego que é similar a adição... o que não é verdade. Isso por causa da homofonografia (acabei de inventar) da palavra bae. Mudamos então o corpus para que nele constasse qual o significado das palavras homófonas e rodamos o program novamente. O resultado foi sensacional! Agora o programa diz que barco, automóvel, navio, cavalo, bicicleta, veículo, etc são equivalentes. Isso qualquer criança pode ver que é bem melhor que o resultado anterior. Todas as palavras acima têm em comum o fato de serem meios de transporte. O mesmo se passou com os sentidos de barriga e pêra. Exultamo-nos!
O interessante é que quando apresentamos essa idéia em sala de aula para o professor e os outros alunos do nosso curso, o professor se irritou com a gente e quase gritando disse: "Pra que fazer isso? Vocês não sabem que isso já foi feito? Vocês não sabem que o resultado não foi muito satisfatório em coreano? Vocês têm a pretensão de dizer que dá pra melhorar isso de alguma forma???" Continuando por uns 5 minutos e durante nossa apresentação com comentários "bem construtivos e apoiadores"... Depois disso, descobrimos que ele havia inscrito esse trabalho como trabalho em conjunto dele com o menino que sumiu (nessa época ele ainda não tinha sumido) para apresentar em uma conferência internacional sobre lingüística computacional. Aí deu pra entender a reação dele... Propusemo-nos a melhorar um trabalho que, sem que soubéssemos, ele iria apresentar na conferência. Mas e daí? Problema dele! Se ele se interessasse um pouco mais sobre a gente, isso não teria acontecido... Ele teria sabido disso antes e não teria ficado todo nervosinho na frente de todo mundo.
Bem, pra encurtar a história, acabou que entregamos o trabalho pra ele um pouco atrasados, tipo mais que uma semana de atraso. Muito disso por causa do tamanho dos corpora (plural de corpus) que demoravam por volta de 15 horas pra rodar e dar resultado. E quando víamos os resulatdos, tínhamos que modificar algumas variáveis pra ver se o resultado melhorava ou não... Isso tomou muito tempo... Eu sei que, no final das contas, depois de mais ou menos um mês de trabalho de cão, varando noite, dormindo no laboratório (quando dava tempo), voltando pra casa só pra tomar banho, e morrendo um dia inteiro na cama quando dava tempo, mandamos o trabalho pra ele por e-mail. Dois dias depois nos chamou em sua sala. Fomos meio com o rabo entre as pernas. Quando abrimos a porta, ele estava que era só sorrisos! Ele adorou nosso resultado, claro que nem passou pela sua cabeça de pedir desculpas o qqr coisa do gênero, mas resolveu aumentar nossa nota (que ele já tinha dado antes de ver o trabalho porque tínhamos demorado e ele tinha que entregar por causa do calendário). Fechamos o semestre com A+. Que beleza! Até que valeu todo o trabalho de doido que tivemos. E a satisfação de ver nosso projetinho dar seus frutos... e graças aos MEUS programas em Python! =) Senti-me super satisfeito!
Pois é, o Munhyon entrou com as idéias, eu entrei com a programação (que me ensinou pra caramba!!!), e ambos entramos com a redação do "paper" (não é papér de mineiro, tá? é pêiper de americano...). Foi um trabalho que se tivéssemos feito sozinhos, não teríamos passado de B, mas juntando nossas forças e idéias, acabamos tirando A+. Foi um senhor trabalho de equipe meu e do Munhyong, ficamos muito contentes, e nos aproximamos bastante. Antes éramos apenas colegas de laboratório, agora somos amigos. Finalmente! Depois de um ano... Brasileiro fala que japonês é difícil de fazer amizade... Vai tentar com coreano, vai! Êita!
Um abraço pro 6.
Inté.

Meu mais novo "bebê"

Depois de quase 2 anos por aqui, resolvi concretizar um sonho que de há muito desejava. Comprei uma bicicleta.
Minha vida por aqui não é nada do que se possa chamar de excepcionalmente ativa (pelo menos não fisicamente). Já estava me sentindo mal de tanta falta de exercício... Então por que não juntar o útil ao agradável? Bicileta foi sempre algo por que sempre me interessei e desde minha primeira, aos 5 anos de idade, nunca fiquei muito afastado da magrela. Pelo menos até me formar no segundo grau. Daí pra frente, só usei bicicleta no Japão, no ano 2000, e de lá pra cá somente pude cultivar o desejo de mais uma vez possuir um meio de transporte barato, prático, limpo e saudável. Mas, em se tratando de Seul, devo também adjungir o adjetivo "um pouco perigoso". Na verdade, não é nada comparado com São Paulo, e de uma forma mais geral, no Brasil. Lá, realmente, eu não tenho coragem de andar de bicicleta em paz. Por aqui, pelo menos os carros andam relativamente devagar, o mais perigoso parecem ser as pessoas. Ninguém olha pra onde vai... Por essa razão, deve-se estar atento pra não atropelar nenhuma velhinha desavisada, ou algum estudante indo pra escola. De resto, tudo bem. Além disso, há relativamente muito mais ciclovias por aqui do que em São Paulo, mas o problema é que as mesmas começam no nada e terminam em lugar nenhum... Não há muita lógica. A não ser em grandes lugares públicos como o parque que margeia o rio Han que corta a cidade de cabo a rabo. Aí sim é o paraíso dos ciclistas. Lá é um tipo de Ibirapuera daqui. Inclusive, agora no "maldito" verão, tem gente que acampa na beira do rio pra dormir, uma vez que o calor dentro das casas se torna infernalmente insuportável. Claro, se se está disposto a pagar uma conta de luz mais alta, basta ligar o ar condicionado, mas muita gente que faz isso (dormir na beira do rio) é porque gosta de se sentir mais perto da natureza, ou os mais velhos que foram criados no campo e ainda não estão tão acostumados com a vida na grande metrópole. E por falar nisso, Seul é tão grande, bonita, feia, limpa, suja, interessante, assustadora quanto São Paulo. O bom é que a parte onde se lê "assustadora" só o é para os Coreanos, já que para quem morou em uma grande metrópole do ocidente isso é fichinha. Crimes quase não existem por aqui. Só de vez em quando, quando alguém tem um ataque de esquizofrenia ou alguma outra doença mental e acaba matando alguém. Aí vira filme e eles ganham o maior dinheirão com isso. Fora isso, há alguns roubinhos vagabundos como o que aconteceu com uma amiga: entraram na casa dela, após serrarem uma grade e meia da janela (como no Brasil aqui também tem grades nas janelas), entraram no apartamento que continha TV, dois laptops, som, e muitos outros etcéteras e levaram sabe o quê? O porquinho de guardar moedas! O POR-QUI-NHO!!! É ou não é divertido? Pra gente, quando ouvimos que alguém entrou na casa de alguém já ficamos esperando pelo pior: estupros, latrocínios, o diabo a quatro... E aqui: POR-QUI-NHO! Não é de fazer rir??? É claro que este não deixa de ser um ato ilícito e imoral e amoral (amoral não é adjetivo referente a "amora", tá?), mas de qualquer forma, para nós brasileiros, só um porquinho se torna engraçado. Isso meio que mede o alto grau de violentabilidade ao qual infelizmente já estamos acostumados, não é não? Já temos uma idéia pré-concebida de que uma invasão domiciliar é um ato que normalmente deve trazer conseqüências catastróficas e não somente perdas materiais; que atos de qualquer tipo de assalto devam trazer algum tipo de violência (geralmente física ou moral). Por aqui, simplesmente o fato de alguém ter adentrado ao espaço privado de uma pessoa sem a devida anuência do proprietário já se considera um fato de extremo perigo e desespero. Essa minha amiga, quando se deu conta do fato, ligou-me para narrar o acontecido e eu, chegando na parte do POR-QUI-NHO, não pude conter-me e explodi-me em risos! No final, ela também acabou por rir, já que percebeu que tudo poderia ter sido muito pior, mas mesmo assim, sua reação me pareceu, a mim como brasileiro, um tanto quanto exagerada.
Bem, essas são apenas algumas poucas histórias (ah, e de acordo com as leis sacras que regem e trancafiam a língua dita portuguesa, "estória" não existe, pelo menos não mais) que se passam por aqui pelas terras do antigo e quadrimilenar "Reino da Manhã Tranqüila". E acabei fazendo mágica neste meu post... Transformei minha nova bicileta em um POR-QUI-NHO! Ahahaha...
Um abraço pra quem fica.
Fui!

domingo, 6 de abril de 2008

Releituras...

Releitura, estilo Final Fantasy, de "Pour Elise" de nosso querido "Ludwig van Beethoven" na voz de IVY (I to the V to the Y), hit do ano passado que acabei encontrando perdido aqui no meu computador e resolvi postar pra vocês.

Um exemplo de KPOP pra vocês.



Aqui vai outra releitura, agora de um super-sucesso japonês, I Love You de Yutaka Ozaki (尾崎豊), uma das músicas que eu cantei no post sobre karaokê. É um grupo chamado Position que sempre está gravando sucessos japoneses em coreano.



Abraço.

segunda-feira, 31 de março de 2008

カラオケ・노래방・卡拉OK

Ontem fomos (com os brasileiros que estão aqui a negócios) a um karaoke, ou norebang (quarto de canções, como se diz na Coréia). Eles são nikkeis, para quem não sabe, japoneses nascidos no Brasil, e apreciadores da cultura karokística. Eu, com minha "febre-amarela", meu espírito oriental, também gosto. Chegando lá, nos arrumamos (5 pessoas) em uma salinha particular com capacidade para umas 8-10 pessoas sentadas, uma tv de umas 40 polegadas e quatro caixas de som de alta qualidade (ou hi-fi como se dizia nos antigamentes). Estávamos eu e Eun Bee, o dono da empresa com a esposa e o advogado (100% carioca). Comecei cantando Kanpai (乾杯), uma música pop-tradicional japonesa, pra levantar o ânimo dos "chefes". Eles gostaram da idéia e se empolgaram a procurar músicas no livrão (uma pasta com aqueles envelopes plásticos pra pôr duas folhas de papel uma de costas pra outra, sabe?, de uns dois quilos e muitas páginas). Primeiro foi a esposa a cantar e depois o marido. Comigo intercalando com algumas músicas japonesa e coreanas. Eun Bee cantou duas, Itta Ittayo (이따 이따요) e Eomeona (어머나). Além de Kanpai, cantei Mujokeon (무조건/無条件) (Desconsiderem as fotos do vietnamita...) (E aqui vocês podem ver é uma paródia que fizeram para o candidato a presidente, e que acabou sendo eleito, I Myeong Bak (이명박/李明博) ou Lee Myung-bak), Tsunami, I Love You, Subaru (昴)... Dona Elisa queria cantar Pusan-han e kaere (釜山港へ帰れ) ou Dorawayo Busan-hang e (돌아와요 부산항에) com Eun Bee já que é uma música nipo-coreana ou coreo-japonesa, mas Eun Bee não lembrava a letra. Sr. Carlos cantou várias que eu não conhecia e infelizmente não me lembro dos nomes. No final das contas, ficamos os três praticamente sem voz, mas felizes da vida. Sr. Carlos disse que já fazia uns bons anos que ele não ia a um Karaoke mesmo, só cantava em casa. Dona Elisa também ficou feliz. Como Eun Bee só cantou duas músicas (a timidez não deixa cantar mais), ela ainda estava bem no final, falando normalmente. :)
Foi bem divertido. Só o advogado, mencionado no início do post, que não se divertiu tanto (por falta de música pra ele; até tentamos achar um Besame Mucho, mas eles não tinham...).

A surpresa é que das 5 músicas que eu cantei, tirei 100 pontos em 3 delas, além de um noventa e poucos com I Love You (essa é mais difícil mesmo)! Óia! Tô ficando quase profissional! Güenta a mão aí que daqui a pouco eu até apareço na TV! (hahaha)

Um abraço pra todos (com a voz rouca...)

De integribus vocibus linguae coreanae

Andei falando a respeito da pronúncia da língua coreana lá no orkut também e aproveito para citar-me e piratear-me, copiando o que disse aqui para o blog. Como tive retorno a respeito da postagem sobre os sistemas de transliteração, acho que um pouco mais sobre pronúncia não faria mal a ninguém.

Aí vai:

Quero aprender coreano
(706 membros)

a questão da pronúncia...

eu também tinha muitas dúvidas quanto à pronúncia do coreano quando comecei a estudar. principalmente quanto às consoantes. o grande problema é que o sistema de sons que eles usam é bem diferente do usado pela língua portuguesa e isso leva um tempo pra assimilar e entender. a primeira coisa a entender é a diferença entre as consoantes do português e as do coreano.
em português, temos só um tipo de constraste entre p/b t/d k/g tch/dj. cientificamente todos esses pares são formados da mesma forma com apenas uma diferença: a vibração ou não das cordas vocais simultanemente à produção das consoantes. nos exemplos dados, a primeira consoante não produz vibração e a segunda sim. no coreano, a distinção é bem diferente: eles têm 3 tipos de diferença e normalmente a vibração das cordas vocais é secundária e não primária como é em português!!!

ㄱ/ㄲ/ㅋ ㄷ/ㄸ/ㅌ ㅂ/ㅍ/ㅃ ㅈ/ㅉ/ㅊ. nesses grupos, a primeira consoante é suave, a segunda é tensa e a terceira é aspirada. traduzindo: a 1a é pronunciada de forma bem relaxada, mais fraca; a 2a é pronunciada com bastante força na garganta; a 3a é pronunciada com uma grande saída de ar. se você pronunciar as 3 com um guardanapo de papel um pouco à frente da boca, o papel não se movimenta nas 2 primeiras mas na 3a ele tem que se mover bastante; é como uma pequena explosão.
para nós brasileiros, as vogais brandas parecem ter dois sons diferentes porque em português a sonorização (o movimento das cordas vocais) é muitíssimo distintivo. em coreano, nem tanto porque o que é importante é a saída do ar e a tensão na garganta.

como TODAS as vogais são sonoras, isto é, produzidas com vibração das cordas vocais, elas influenciam as consoantes suaves e só elas porque elas são mais fracas e mais volúveis (ㄱ,ㄷ,ㅂ,ㅈ). então é por isso que no começo de uma palavra, parece, para nós brasileiros, que eles estão falando k ao invés de g. isso é porque a vibração das cordas vocais começa bem mais tarde que no português, isto é, só quando a vogal seguinte aparece. por exemplo: um brasileiro quando fala "baba" começa a vibrar as cordas vocais antes de começar a palavra, fazendo com que o som do B seja bem mais forte. um coreano não: ele faz o B só na boca sem as cordas vocais e só começa a vibração quando chega a vogal. já o próximo B como está depois do A, pega carona na vibração anterior e se junta com a vibração do A que vem depois e, por isso, soa igualzinho ao B do português! na verdade, a consoante é a mesma, isto é, a posição dos órgãos da fala (lábios, língua, garganta) mais a quantidade de ar é exatamente a mesma, só a vibração das cordas vocais varia. por isso é que 바바 parece PABA para um brasileiro... mas quando um brasileiro fala PABA, um coreano escuta 빠바 porque o P do português é bem mais forte (tenso) que o ㅂ do coreano!!!

isso para um brasileiro é um GRANDE problema! temos que esquecer que a vibração das cordas vocais em coreano não é tão importante quanto é em português! o importante sempre é a força com que a consoante é pronunciada! na transliteração, isto é, quando se escreve coreano com o alfabeto latino, a consoante mais suave é escrita G, a tensa: GG, a aspirada: K.
Em comparação com o português, ㄲ é bem parecida com nosso K, ㄱ entre vogais é idêntica ao nosso G e ㅋ com muita saída de ar não existe normalmente pra gente, mas em inglês é bem comum...
isso se aplica a todas as outras consoantes desse grupo:

1 2 3
ㄱ g ㄲ gg ㅋ k
ㄷ d ㄸ dd ㅌ t
ㅂ b ㅃ bb ㅍ p
ㅈ j ㅉ jj ㅊ ch

1: suave e com alguma saída de ar
2: tensa e com quase nenhuma saída de ar
3: com muita saída de ar

um ótimo exercício é treinar com um guardanapo a alguns centímetros à frente da boca! parece besta, mas funciona! 1 e 2, não mexe quase nada. 3, quase sai voando!

espero ter podido ajudar um pouco com esse dilema que o brasileiro tem quando tenta aprender coreano...
já faz quase oito meses que estou aqui em Seul estudando coreano para entrar no curso de mestrado em lingüística na Universidade Nacional de Seul, mas eu posso dizer que não é fácil não. A pronúncia é um dos pontos mais difíceis pra gente. Então eu aconselho a quem mora em São Paulo, vai no Bom Retiro, escuta as pessoas conversando, tenta falar alguma coisa com eles, vai no restaurante 귀거래 e conversa com o 절수씨, um garçom brasileiro que atende em coreano fluente, ou na mercearia 오뚜기 onde tem uns atendentes brasileiros que também falam. Procure usar a língua. Pra quem não mora em SP, compre livros com CDs pela internet, procure coisas no www.naver.com, assista vídeos na internet, ouça músicas. o contato com o som é de extrema importância pra gente começar a perceber esses pequenos detalhes. Tente fazer amigos coreanos! E não se esqueça de fazer papel de bobo para os outros (e de inteligente para você mesmo) falando em voz alta os textos dos livros! Todo mundo pergunta: "você FALA coreano? (ou inglês, japonês, alemão, o que seja...). Ninguém pergunta: "você RESMUNGA coreano?". Pense nisso: praticar em voz alta é a melhor solução para qualquer língua! Não tenha medo! Não pense no que os outros vão pensar agora que você está exercitando, pense no que eles vão falar depois quando você estiver falando!

palavra final

a questão da pronúncia não acaba aqui. o problema é que não tenho mais tempo e não posso continuar. mas vou deixar uma lição de casa.

nós brasileiros não ligamos a mínima para o coitadinho do M e do N... em posição final! pense bem: PAM, PAN, PÃ. como você leu? PÃ, PÃ, PÃ? pois é... no Brasil não faz a mínima diferença como se escreve: o som sai igual. mas porque existem então duas letras M e N? porque na verdade os sons são muito diferentes!!!! pense no M e no N no começo de uma sílaba: MA e NA, p ex. são diferentes? então: no final de sílaba (isso na esmagadora maioria das línguas!!! português é que é a exceção!!!) também são diferentes, guardando a mesma diferença que fazem no começo da sílaba.

se for difícil, tente imaginar um E-zinho minúsculo no final das palavras. PAMe, PANe, e PÃ (muito parecido com PANG). Vá repetindo muitas vezes a mesma sílaba e devagarzinho, pouco a pouco, vai diminuindo a força desse E-zinho até ele desaparecer, mas parecendo que ele ainda está lá! Tcham tcham tcham tcham! Aí está vc pronunciou corretamente a diferença do M e do N.

o negócio é que a gente pensa que acabou pronunciando 빰 빤 빵, né? quase... outro grande, enorme, monstruoso problema do brasileiro é pensar que o mesmo A de bAla é o mesmo A de cAma! e NÃO é! a gente muda o A quando tem algum som nasal por perto... cAma, cÂntaro, cÃibra são muito diferentes de cAlo, cAbo, cAsa... então, em coreano e a imensa maioria de outras línguas neste nosso mundão NÃO faz isso! então tente manter todos os sons das vogais como eles são, não importando o que vem antes ou depois... nesse caso igual ao espanhol, sem mudança de som em nenhuma vogal A é A, E é E, O é O, etc...

Agora, pense também no L no finaL de sílaba. brasiL ou brasíU??? por que muda??? em coreano... pense!

Ex orcuti (Me deu uma saudade de latim esses dias...)

No ano passado andei escrevendo no Orkut, na comunidade "Quero aprender coreano", algumas informações a respeito da bolsa de estudos para a Coréia. Caso alguém se interesse, aí vai!

Quero aprender coreano


Estudar na Coreia

Oi, gente. Faz tempo que eu nao apareco por aqui por falta de tempo... Mas estive lendo por ai pelos topicos e percebi que tem gente que tem vontade de vir pra Coreia pra estudar. Eu sou um exemplo disso. Sou formado em linguistica na USP e sempre tive muita fascinacao pela Asia. Ja tinha feito um intercambio no Japao, em 2000, e agora decidi vir para a Coreia. Cheguei aqui no ano passado, em agosto, para o mestrado em linguistica. Eu posso dizer que ter uma nocao de japones ajuda - e muito - aprender Coreano e vice-versa. A estrutura das duas linguas eh sim muito parecida.
Eu, por exemplo, acabei de comecar meu curso de mestrado na Universidade Nacional de Seul (a principal universidade daqui) agora em setembro. Para quem tiver interesse em um curso de mestrado ou doutorado por aqui, dah uma passada em algum consulado ou na embaixada coreana. O movimento ainda eh baixo e, por exemplo, este ano foi escolhido um cara do Brasil, mas ele acabou desistindo. Eu suponho que acabou nao vindo ninguem por falta de candidato, ja que normalmente neste tipo de bolsa, sempre ha pelo menos uma segunda colocacao no caso de desistencia do agraciado.
Normalmente quem vem tem um ano de estudo de lingua corena na universidade de Kyunghee (http://www.khu.ac.kr) e depois segue para qualquer universidade escolhida pelo aluno para o curso de mestrado ou doutorado em qualquer area e ainda ha a possibilidade de estudos em ingles (o que a grande maioria faz).
Fora isso, o convivio com gente de cada cantinho do nosso planeta torna a experiencia muito mais interessante: quando eh que eu imaginaria que eu seria vizinho de gente do Laos, Costa Rica, China, Republica Tcheca, Quirguistao, Bangladesh, Vietna, Sudao, Marrocos, etc., etc.???
Eh muito legal e vale a pena.
Pra quem tem interesse, eu tenho um blog (apesar de nao ter muito tempo pra escrever) e la tem um pouco mais de informacao: http://jjunho.blogspot.com .
Um grande abraco e muito sorte para todos! Persigam seus sonhos que eles se tornam realidade!^^
04/11/07

Esqueci...
O site do orgao responsavel pelos intercambios eh este:
http://www.ied.go.kr/english/

Mas pra conseguir a bolsa, tem de entrar em contato e passar pelo processo seletivo do consulado ou da embaixada no Brasil. OK?

Um abraco

Juliano
04/11/07

Outra coisa interessante...

Esqueci de dizer que a bolsa cobre passagem de ida e volta para Coreia, gastos com estudo (quase irrestrito: dependendo do resultado academico do aluno), mais uma bolsa mensal de 850.000 wons (940 dolares no cambio atual - suficiente para viver bem por aqui), mais auxilio para compra de material escolar uma vez por semestre no valor de 250.000 wons (275 dolares), alem de viagens junto com a galera de bolsistas para varias partes da Coreia durante o ano. Muuuito legal!^^ Eh claro, que precisa estudar tambem, senao nao da, ne?^^
21/11/07

Oi, gente. Mais informações.

Também pelo NIIED tem um programa de estudo de língua e cultura coreana. A diferença é que esse tem que ser pago. Mas, em comparação com outras escolas por aqui, é bem mais barato. Normalmente é utilizado por coreanos nascidos no exterior que vêm para aprender a língua e a cultura da Coréia a mando dos pais, mas também é aberto a estrangeiros interessados. Funciona por trimestres e dá direito a moradia e a refeições. O dormitório fica a um minuto do prédio do NIIED onde as aulas são dadas. Se não me engano, o valor fica por volta de 700-800 dólares, o que não é caro, já que só o aluguel de um apartamento estilo kitchenette fica na casa dos USD300-400 com seguro-fiança de USD 15-20.000!!! O preço de um curso de coreano de 10 semanas em uma faculdade conhecida fica por volta de USD1500... Então, é só sair e procurar informações pela internet, consulados e embaixada.

Um abraço e boa sorte

domingo, 30 de março de 2008

De rebus socialibus

Esses dias chegou uma comitiva de uma empresa brasileira para fazer negócios com empresas coreanas e eu os acabei conhecendo. A propósito, o almoço de aniversário a que tenho que ir daqui a pouco é de um deles.

Conversa vai, conversa vem, acabou o papo chegando às inevitáveis comparações sociais. "Nossa, os coreanos fazem assim, né? Os coreanos fazem assado... Etcétera e tal."

Pois bem, uma das comparações foi o "oba-oba", o "empurra-empurra" ou o "vup-vup" (como diz minha mãe).

Não sei se vocês se lembram de quando eu falei do pali-pali, o "rápido-rápido", a palavra mais pronunciada (ambivalência semântica intencional) por estas bandas. Tudo tem que ser rapidinho. Não importa, no entanto, se seja bem feito ou não. Basta a rapidez, a velocidade, a presteza, a anti-inércia.

O momento mais notável é nos meios de transporte de massa: metrôs, ônibus (plural), escadas rolantes e afins.

O momento de embarque/desembarque é uma competição inconsciente para ver quem consegue embarcar/desembarcar primeiro que o "oponente". Não importando que dispositivos se usem para que o feito atinja pleno sucesso. Leia-se: é um empurra-empurra do cão.

As ruas, ruelas, vias e vielas do bairro de Myeongdong (명동/明洞), meca de todas "as" jovens, bem como algumas senhouras e vovós também, vivem congestionandamente lotadas. Conseqüentemente, o "empurra-empurra" toma lugar e eu me sinto num parque de diversões no carrinho bate-bate. Não importa quem esteja à frente, seja uma vovozinha (ou vovòzinha como se escrevia algum tempo atrás antes da reforma ortográfica que está para ser rereformada) ou seja um cara de dois metros de altura. E o mais notável é que geralmente quem está por trás do corre-corre e empurra-empurra são as mulheres. As senhouras de meia-idade pra cima, então, essas sim são um bulldozer! Passam arrastando tudo o que vêem pela frente. Em marcha acelerada de deixar o capitão Nascimento com orgulho, zero-um!

Em locais públicos de altíssima circulação, principalmente em estações metroviárias, é de praxe haver uma divisão pintada no centro dos corredores dividindo-os em duas vias - uma mão que vai e outra que vem. Isso funciona às vezes, mas na prática, nas horas de pico (praticamente o dia todo), ninguém liga pra isso; um turbilhão de pessoas indo e vindo e abrindo espaço para passar sem quase diminuir o passo da marcha. Dessas divisões, somente a das escadas rolantes é respeitada. A faixa da direita é para quem vai ficar parado e a da esquerda é para quem vai subir a escada rolante andando ou correndo. Esses dias, eu vi uns cartazes em várias estações do metrô onde se lia que o governo aboliu tal prática pelo fato de que muita gente já se machucou. De acordo com a estatística estampada em tal cartaz, somente no ano passado, mais de 400 pessoas se machucaram devido a trombadas e encontrões durante o movimento ascensório ou descensório de tais meios de transporte. Agora eu pergunto: alguém liga? Resposta: claro que não! Todo mundo olha os cartazes, faz cara de paisagem, e os ignora.

Essa questão de cartazes/placas proibitivas e/ou admoestativas é um fato que chega a ser cômico, pelo menos para mim.

É muito, mas muito comum mesmo ver placas de "Proibido Fumar" e uns dois ou três carinhas justamente à frente/embaixo das mesmas fumando deliciosa e calmamente seus cigarrinhos. Alguém fala alguma coisa? Não. Banheiros: outro lugar onde sempre se vêem tais plaquinhas. E o que se encontra dentro destes reinos da privacidade? Cinzeiros instalados ao lado dos mictórios e dos vasos sanitários cheios de guimbas e mais guimbas fumadas a bel-prazer.

Voltando a falar da questão das mãos de direção para pedestres, quando cheguei (agosto de 2006), havia nos metrôs plaquinhas nos degraus das escadas dizendo "O povo com educação caminha pelo lado esquerdo". Devo dizer que há essa tendência pelas ruas e outros locais de circulação de pedestres pela cidade, excetuando-se claro quando o número de pessoas não seja de 10 por metro quadrado. No fim do ano passado, porém, alguém do governo, que creio eu que não tinha muito o que fazer, resolveu soltar a seguinte pérola: "A mão inglesa (mão esquerda) nos foi imposta pelos colonizadores japoneses e não devemos aceitá-la, devemos seguir o resto do mundo que usa em sua grande maioria a mão direita para pedestres, assim como já fazemos com o trânsito de automóveis." Não sei exatamente quando começou isso, mas tudo o que tem uma conexão direta ou indireta aos malditos colonizadores japoneses deve ser expurgado da sociedade coreana como um câncer que macula a pureza do povo Choseon (조선/朝鮮) (nome tradicional da Coréia nos idos do milênio passado). Isso se vê principalmente no vocabulário. Há várias palavras japonesas que foram adotadas durante o período de colonização japonesa e que resistem firmes e fortes até o dia de hoje. Principalmente nomes de comida. Um exemplo é o caso do "kamaboko" (かまぼこ) japonês, um dos ingredientes utilizados na confecção do oden (おでん), o qual é chamado na coréia de "odeng" (오뎅). Todo mundo come odeng, todo mundo gosta de odeng, mas quando a gente aprende a falar odeng no curso de coreano o nome do odeng é "eomuk" (어묵/魚묵), isto é, pasta de peixe - palavra inventada por uma comissão criada pelo governo para a "reimaculificação" da língua coreana.

Em tempo, se alguém, por falta de atenção deixa escapar algum tipo de palavra assim na TV, acaba pedindo desculpa e se corrige dizendo a palavra coreana "pura". E olha que coreano pedir desculpa é um fato digno de nota - todo esse empurra-empurra sobre o qual discorri há pouco é efetuado sem a mínima intenção de expressar o menor pedido de desculpa que seja.

É claro essas e outras diferenças são fatos que só são percebidos por estrangeiros. Assim como um brasileiro pode achar estranho isso ou aquilo por aqui, eles quando vão ao Brasil também acham estranho outras coisas... É tudo uma questão de ponto de vista. E a gente que passa um bom tempo por aqui acaba por assimilar boa parte desses costumes e nem percebe que acaba fazendo o mesmo.

Bom, vou ficando por aqui. Até a próxima. E a questão da "colonização japonesa" merece uma postagem à parte. É uma coisa de louco mesmo.

Um abraço.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Pão. Quer coisa mais simples que isso?

Mas por aqui não é não.

Eu estava passando os olhos nas notícias e acabei caindo no seguinte post do Diplô: Procura-se pão francês. Leiam. É basicamente o que penso toda vez que vou a uma padaria por aqui. Que falta faz o nosso pãozinho francês (que aparentemente não tem nem na França...)!

Pois é, pra mim pão é pão e depois vêm as roscas doces, rosquinhas, broas, brevidades, croassãs (ou croissants, para os mais metidos), esfihas, salgadinhos assados... Mas por aqui isso tudo aí se chama "pão". Que por influência dos japoneses, que por sua vez foram influenciados pelos portugueses do século XVI, também usam uma corruptela da mesma palavra: パン [pan] em japonês; 빵 [bbang] em coreano. O "pobrema" que eu tenho por aqui é que eu gosto de pão, e pão pra nós é aquele pãozinho gordinho crocante por fora e com aquele miolinho fofo e esfumaçante de uma fornada caprichada que acabou de sair. Dá até água na boca! Mas aqui não tem. Pão aqui só se vende depois que esfria, além da grande maioria ser doce. Para as formiguinhas de plantão até que não é tão má idéia, mas eu tenho muita saudade do nosso pãozinho salgadinho quentinho com aquela manteiguinha derretendinho e aquele cheirinho maravilhoso... Disso me vi privado desde o momento em que aqui cheguei... (suspiro)
Pão que não é doce por aqui, uma grande minoria, são por exemplo massa folhada com salsicha e um quilo de ketchup... Em tempo, a questão de ser doce ou não é uma linha muito sutil... isso só vale em questões comparativas: explicando melhor, pão doce é doce - com um monte de açúcar, geléia, doce de feijão, etc; já o pão que não é doce não é salgado, só tem menos açúcar, quase não dá pra perceber, mas ainda tá lá! Mesmo esse pão com salsicha, tem uma demão de açúcar derretido por cima (sutil) e o ketchup, querendo ou não, é doce. Pois, tá aí, como sobreviver por aqui? No extremo não doce, está a baguete (50 cm) ou a meia-baguete (20 cm), que é mais difícil de achar. Apesar de ser o pão menos doce, não contém uma gota de sal. Tem gosto de nada com coisa alguma. Só se sente mesmo a "cocrância" da casca e o miolinho macio (que deixa ainda um pouco a desejar quando comparado à fofura do miolo do pão nosso de cada dia no Brasil).
Nessas minhas incursões às padarias coreanas (que possuem alcunhas galicistas como Paris Croissant, Tous les Jours, Paris Baguette...) acabei por me decidir por algo que se assemelha mais aos nossos salgadinhos do que a pão propriamente dito. Tem um com uma massa parecida com esfirra (mais fina) com recheio de queijo (alguns microgramas), cebola e temperos (+- 100g - 1200 wons, uns R$ 2,40); outro é um super-salgadão vendido cortado ao meio, com um recheio "aproximadamente semelhante", um pouco mais caprichado (+- 300g - 3500 wons, uns R$ 7,00).
Então, pra não ficar muito triste, eu tento nem ir muito a essas padarias, pra não acabar morrendo de 唐尿病 당뇨병, literalmente "doença da urina doce", isto é, diabetes.

É claro que pão não é um alimento tradicional coreano, apesar de já ser conhecido aqui no extremo oriente desde o século XVI como já mencionado acima. O "pão" tradicional daqui é o 떡 (ddeok, leia-se tók), arroz glutinoso (esta palavra existe em português???) batido no pilão até formar uma massa completamente homogênea, conhecido no japão como 餅(もち) (mochi).
Pode variar em tamanho, cor, forma, sabor, recheio e cobertura. Há zilhões de tipos diferentes. Não posso dizer que eu goste, mas não é de todo ruim não. Depende do tipo.

E o ddeog é completamente ligado às tradições coreanas. Não há um tipo de festa em que não esteja presente: nascimento, aniversário de 100 dias (uma das festas mais importantes para a família), casamento, homenagem aos antepassados, etc. Sempre são colocados nas mesas como enfeites muito bem trabalhados, com várias cores e pilhas de vários formatos. Claro, antes de irem pro bucho depois das festividades...

Vocês podem ver um tipo de ddeok especial para o dia do festival dos mortos nesta foto nos dois cantos posteriores da mesa. Foto tirada na casa do irmão mais velho da parte paterna da família (chamada de Grande Casa) da Eun Bee.

Bem por hoje tenho que ficar por aqui. Tenho que ir pra facu daqui a pouco... Depois nos falamos mais um pouco. Até! :)

domingo, 16 de dezembro de 2007

Quase nos finalmentes

Oi, gente!
Faz muuuito tempo que eu não escrevia aqui no blog. Tudo graças à época de provas, trabalhos, apresentações, etc, etc. Não foi fácil, não. Apesar de eu ter apenas 3 matérias, eu me sinto como se tivesse dez.
Tudo começou um pouco mais de um mês atrás, quando tive que começar a preparar minha apresentação de sintaxe a respeito de "Retomada, Ciclicidade Sucessiva e Localidade de Operações" na língua irlandesa. O texto tinha umas 50 páginas e, por ser longo, foi dado a duas pessoas: eu e uma menina chinesa. O problema é que essa menina não entende quase nada de inglês e, durante todas as vezes em que nos encontramos, ao invés de discutirmos a respeito do texto, eu tinha que (tentar) traduzir o texto junto com ela. Ficamos mais de 30 horas só na metade do texto e eu tive só uma noite para preparar a minha parte, que era a outra metade. Foi uma beleza. E o melhor, é que na noite anterior à apresentação, ela me mandou o que ela preparou e aí me dei conta que ela tinha feito um capítulo a menos do que havíamos combinado, sobrando para mim entender e explicar o que ela deixou pra trás. E, para completar, eu tinha pegado gripe e estava me sentindo péssimo.
No dia seguinte, foi feita a apresentação e eu me surpreendi, porque esta professora, durante todas as outras apresentações dos outros alunos, sempre interrompia e explica isso ou aquilo, mas durante a minha, ela ficou quietinha e só balançava a cabeça concordando com o que eu dizia. Fiquei surpreso com isso, e mais ainda quando no final ela se virou pra mim e disse: "muito boa apresentação, viu?". Fiquei bem feliz com isso, e levantou meu ânimo para enfrentar as 3 semanas "maravilhosas" que me esperavam pela frente.
Na segunda-feira passada, tive uma apresentação na matéria de Lingüística Computacional Prática, onde falei sobre uma linguagem atualmente em criação por pesquisadores da Universidade do Minho para a criação de ontologias. Depois, na quarta, tive a prova final da matéria de Lingüística Computacional Teórica. Essa foi de amargar. Apesar de ter estudado, não me lembrava das fórmulas para a aplicação na hora da prova. Na verdade, as provas deste professor, que, diga-se de passagem, é meu orientador, são o ó. Na hora das aulas, ele passa como uma borboleta pela matéria, "explicando" (pelo menos é o que eu acho que ele acha que está fazendo), lendo as apresentações de power point que ele chupinha prontas de alguma universidade dos Estados Unidos, e, na hora da prova, ele pede pra gente dar os valores (calculados na mão com uma calculadora) que o programa daria se estivesse rodando no computador. Isso é o cúmulo. Para um resultado de cinco linhas de programa, o que o computador levaria menos de um segundo para rodar, nós levamos muitos e muitos minutos para digitar na calculadora e escrever passo-a-passo, o estado do programa ao fim de cada operação. Outra, se fosse apenas uma ou duas questões desse tipo, até que vá lá, mas foram umas oito! Haja paciência... Além disso, ele nos deu apenas duas horas para fazer tudo isso. Depois de acabar o tempo, e ninguém ter conseguido terminar, ele acabou dando mais meia hora. No final, nem sei o que esperar dessa prova.
No dia seguinte, tivemos uma prova de sintaxe. Também oito questões para serem resolvidas em 3 horas. Até aí, tudo bem porque era prova de consulta. O problema é que quando eu terminei de responder todos os 6 ítens da primeira questão já havia passado uma hora e meia... Comecei a correr, mas ao término das 3 horas, a professora chegou e ninguém tinha feito nem a metade. Ela então disse que poderíamos ficar até às 6 da tarde, que era quando ela sairia da universidade. Depois de 5 horas de prova e mais de 10 páginas (A3) escritas à mão, eu havia conseguido terminar uns 90% da prova. Mais que isso eu não conseguia fazer, não sei se por ignorância das respostas ou por fastio mesmo de escrever tanto sem descansar. O cérebro já não funcionava mais como deveria...
Logo depois dessa aventura digna de um recorde no livro do Guiness, reunimo-nos, eu mais os dois caras que trabalham comigo no Laboratório de Lingüística Computacional, e um menino e uma menina que trabalham no Centro de Pesquisa de Sintaxe para irmos comemorar nossa sobrevivência a um episódio tão singular. Fomos ao bairro mais próximo da universidade e entramos num restaurantezinho para comer frango (que não estava mal, apesar de seco de tão cozido...) e mandamos ver na cerveja. Depois, fomos a um outr restaurante especializado em caracóis chamados "sora" e "golbengi" muito utilizados durante a bebedeira de soju, a bebida nacional coreana. Além disso, no final, ainda resolveram pedir "kijoge", uma concha parecida com mexilhão mas tamanho-família, com molho e queijo mussarela, assada na brasa.
Nem preciso falar em que que deu essa mistureba no meu bucho, né? Principalmente depois de pegar mais de 40 minutos de metrô sacolejante de volta para casa e passar três estações depois da que eu teria que descer às 12:45, sendo que meu dormitório fecha as portas à uma hora, né? Nem preciso falar... Mas, no final das contas, pelo menos consegui pegar um táxi, sair correndo e alcançar as portas abertas. Pelo menos consegui dormir na minha cama quentinha...
Vou ficando por aqui hoje, porque estou com muito sono e amanhã tenho minha última aula deste semestre. Volto em breve.

PS: Aí vai um videozinho do segundo lugar, com o Munhyeong comendo caracóis, o Sangcheol falando "Tá bom" (que é marca de suco de laranja aqui) e a Suyeong perguntando como se fala Brasil em "brasileiro"...

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Oi, gente!

Ainda estou vivo, apesar de estar no meio da época de provas. O negócio tá feio, mas nóis vai levando devagarzinho. Ontem tive mais uma apresentação. Fiquei até muito feliz com o resultado, porque esta professora, normalmente não deixa um aluno falando sozinho durante toda a apresentação, ela sempre interrompe e explica o que devia ser explicado. No meu caso, ela ficou durante todo o tempo que falei (acho que quase uma hora) sentadinha, balançando a cabeça e confirmando o que eu falava. No final, ela olhou pra mim e disse: "Muito boa sua apresentação". Isso me deixou muito feliz!!! ^o^/
Agora na próxima semana vai ser prova dela, um dia depois de uma outra prova animal. Não sei como vou gerir meu tempo, mas tenho que dar um jeito...

Só pra descontrair, peguei os textos da primeira página do meu blog e joguei em um gerador de frases aleatórias, o qual utiliza "Markov Chains" que é o que eu estou estudando agora e este foi o resultado:

"# Tô cansado pra dedéu, e já não me lembro direito de uma semana toda que eu tinha tirado no máximo uns 40! Fiquei muito feliz com isso!^^ Valeu o dia!^^ Mas aí acabam-se as luzes, o pano da cortina desce e meu dia acaba. PUM. O negócio é que, quando tomo a prova e você tem que escrever tim-tim por tim-tim o que eu fiz nos últimos dias. Tentei usar de tudo aquilo (falando, não comentando ou explicando ou elucidando ou ensinando; falando), depois ouvimos apresentações de outros alunos q leram os textos extras, que - por coincidência - tbm só mencionam o q leram. O professor faz um-hum e beleza! A aula tá dada e até a próxima. Acho q dava pra fazer um curso de pós-graduação aqui na Terra da Manhã Tranqüila (ou seria Serena? Em português não sei como é que fica... e também não tenho tempo de pensar agora.)."

Já que não dá pra eu escrever, resolvi reescrever o já escrito de uma nova forma para uma releitura pra quem não leu... :p

Pois é, por hoje é só, pessoal.

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